Por Carlos Lucena – A HISTORIA DE BAIXIO CANTADA E CONTADA EM VERSOS

16 ago 2019

Arte/foto – Cícero Coutinho

BAIXIO CANTADA E CONTADA EM VERSOS

1886 – 1956

Vou em versos contar
Uma história verdadeira e real
Uma história secular
De um pequeno arraial.

Os anos de mil e oitocentos findava
A caatinga por aqui se estendia
Alma vivente aqui não morava
Mas de repente, certo dia
Talvez por destino e sorte
Coronel Liberalino surgia
Das bandas do Rio Grande do Norte.

Chegou aqui com família
Instalou fazenda de criar
Na bagagem, mulher filho, jumento e novilha
A mobília era um banco de arruá
Mas prosperou de repente
Foi logo mudando o lugar
Que virou uma fazenda descente.

Com ele, veio Francisco Luís
E com a irmã do coronel se casou
No casório foi muito feliz
Fez roça, criou gado e plantou
Mas a felicidade não era tanta
Porque Luís nunca filho gerou
Porém também coronel se tornou.

Os dois coronéis se juntaram
E fizeram a fazenda crescer
Na caatinga se embrenharam
E a mata que era fechada
Virou campo pro gado comer
Na mão roçadeira, foice e enxada
Baixio começou a nascer!

E o tempo ligeiro passando
Tudo na fazenda crescia
Os coronéis enricavam
Um vilarejo nascia
Famílias aqui se achegavam
Plantava roça instalavam moradia
E na fazenda ficavam.

Mais de trinta anos passaram
E o coronel Liberalino
De cognome Umbelino
Virou fazendeiro importante
E trazia pra sua fazenda
De terra muito distante
Homem, mulher e menino.

Os anos vinte começavam
Casa de taipa, barraca e palhoça
Um vilarejo formavam
O povo botava roça
E na fazenda do coronel
Quem não fazia escarcéu
E suas terras ficavam.

Agora, é que vai começar
O ano de vinte e um já chegava
Gente de toda parte aportou
Cassacos, esmoles, beradeiros
Vieram aqui morar
Pois estes foram os primeiros
Que vieram os trilhos fincar.

Era a RVC que passava
Que foi uma obra importante
Pois dois estados ligava
Unindo o que era distante
Era o trilho do trem que chegava
E no meio da velha fazenda
As terras do coronel cortava.

A obra foi concluída
No final do ano vinte dois
Festa lhe foi atribuída
E o coronel mata alguns bois
Banda de música e dança
O povo enche a pança, depois
E quase não acaba a festança.

Em agosto do ano de vinte três
O vilarejo já era formado
E logo um povoado se fez
Um arraial habitado
E para alegria do povo
Concluiu-se a construção
Do prédio da estação

Foi nesse ano, porém
Que José Pires Lustosa e Cícero Brasileiro
Por causa do trilho do trem
Chegando aqui por primeiro
Instalaram um armazém
Pra vender a beiradeiro
Farinha, feijão e aguardente também.

No vilarejo, a pobreza reinava
E crescia a população
Tudo Cícero observava
E como tinha bom coração
Precisava algo fazer
Pra mudar a situação
e melhor aquele povo viver.

Foi então que teve a ideia
Reuniu alguns homens de bem
E fez uma pequena assembleia
Chamou gente de posse também
E assim organizaram premente
Para acudir pobre e carente
A Irmandade de São Vicente!

Foi assim que se tornou
Um líder popular
Em Lavras, numa farmácia trabalhou
E quando alguém adoecia
Logo lhe acorria
E usando de experiência
Com muita inteligência se tornou receitador.

Sua popularidade crescia
E tudo o povo lhe acorria
Se um vivente morreu
Ou se alguém adoecia
Ali ele estava presente
Sem pranto nem agonia
Ajudando ao pobre carente.

O vilarejo virou distrito
Com sede em Umari
Aqui não havia atrito
Tudo era bom por aqui
Cícero político se tornou
E ao povo muito ajudando
Grande prestígio ajuntou!

No início dos anos trinta
Veio aqui se instalar
Uma usina por nome Garcia
Óleo, resíduo e sabão
Isso tudo ela fazia
E da pluma do algodão
Tirava o caroço e espremia!

A usina empregou muita gente
Até luz ela aqui instalou
O lugarejo cresceu de repente
Logo um casario formou
O lugar de noite e de dia
Com o povo em grande euforia
O vilarejo quase cidade virou.

O progresso andava às pressas
O lugar se encheu de gente
Parecia romeiro em promessas
E um dia de repente
Umas moças aqui chegou
E botavam um cabaré
Que se chamara Vivot (vivo)!

Os cabras fizeram festa
E de noite não dormiam
Meio dia, hora da sesta
Para o cabaré corriam
Foi por detrás da usina
Que o cabaré se instalou
E faziam muitas festas com as quegas do vivot!

Fausto Maia, era sócio majoritário
E alguns homens Daqui a ele se associou
A Usina e seu proprietário
Grande empresa formou
Dominava a região
Produzia sabão e óleo
E resíduo do caroço de algodão.

Cícero Brasileiro do grupo empresarial
Fazia parte também
Mas no grupo de sócios, porém
Com Maia veio pro arraial
Um advogado elegante
Seu nome era Arruda
Um doutor de porte pedante.

Em Alagoinha o doutor residia
Mas aqui também estava
Por causa da Usina Garcia
Por aqui ainda ficava
Pois, além de sócio da empresa
A escrituração também fazia
Pois conhecia advocacia.

No ano de trinta e um
Cícero Henrique Brasileiro
Já era um político comum
E seu comando Pioneiro
Já liderava o lugar
Foi o político primeiro
De quem se houve falar.

Arruda, doutor advogado
Alagoinha comandava
Ficou logo despeitado
Daqui ele não gostava
Desafeto se tornou
De Cícero Brasileiro
Que grande político virou!

A sede era em Umari
O prefeito lá ficava
Nada era feito aqui
Pois Umari Governava
Porém, a Usina Garcia
Com o trem que aqui passava
O comércio e a economia vultuosamente crescia!

Deu-se o ano de trinta e dois
Com muita luta e peleja
E algum tempo depois
Trouxeram a sede pra aqui
E como é engraçado, pois veja
É coisa que dá pra rir
O nome do município continua sendo Umari!

Arruda também não gostou
Mas não pôde fazer nada
Por aqui a sede ficou
E a cidade foi instalada
Até luz elétrica chegou
Mesa de renda foi criada
Porque ao lado de Cícero estava o Governador!

Foi nesse ano também
Que a comarca aqui chegou
Trazendo um homem de bem
Que o termo instalou
Foi tudo que Cícero Quis
E esse mesmo doutor
Da Comarca foi o juiz

Dr, Genézio Lustosa Cabral
Instalou sua moradia
Onde também despachava na casa paroquial
Trouxe consigo grande família
Povo fino, elegante e cordial
Cada filho era um bacharel
Sua esposa e suas filhas, professoras de anel!

Dona Líbia, dos filhos do juiz genitora
As Escolas Reunidas comandava
Porque era sua diretora
Cinézio e Raimundo
Cada um bacharelava
Era uma família promissora
Lourdes Eloisa cada uma professora!

Por aqui tinha algum empório
O comércio muito cresceu
Bodega, bar, loja e cartório
Quando novo fato se deu
Cícero se tornou tabelião
E foi preciso nomear
Amaro Farias, escrivão.

Cícero se tornou mais querido
Por todos era procurado
Arruda ficou aborrecido
E de Cícero intrigado
Porque já tencionava
Se opor ao Brasileiro
Quem sem governar governava!

O ano de trinta e quatro foi ano de campanha eleição
Baixio já se tornara cidade
Alagoinha e Umari inda não
Foi grande a prosperidade
Pois por causa da Usina
Que beneficiava algodão
Por isso proporcionava grande arrecadação!

Cícero foi indicado
Não houve quem lhe enfrentasse
Pois apoio foi lhe dado
Não teve que lhe arredasse
Naquele primeiro pleito
Não precisou ser eleito
Mas se tornou o prefeito!

Arruda não ficou satisfeito
Parte de Umari também não
O povo se dividiam
Mas a Cícero não deixavam
Porque nas terras do Coronel
Forasteiros não mandavam
E nem faziam escarcéu

Depressa o tempo passou
E a rixa não parava
Em Baixio, Arruda se abancou
Mas jeito não encontrava
A Cícero ele odiou
Mas aqui era Cícero quem mandava
Por isso a briga não cessou!

No ano quarenta e dois
Arruda elege o prefeito
Porém Cícero Brasileiro
Como era bom sujeito
E também foi o primeiro
Permanece satisfeito
Com seu jeito pioneiro.

Todo dia é confusão
Briga pra todo lado
Bacamarte e mosquetão
O tiro estala rasgado
Pra as bandas da estação
E o povo desesperado
Apavorado Jogava o corpo ao chão!

Muita festa se deu
Uma de cada lado
Cada um ia pro seu
Era um lugar animado
Porém sem se esperar
A cidade escurecia
Com tiro de bala no ar!

Nas festas de Arruda
Brasileiro nenhum cabia
E nas festas de brasileiro
Arrudista não se metia
Porém uns cabras atrevidos
Que não tinha pé do ouvidos
Para os dois lados ia.

Foi num baile da prefeitura
Uma festa de arrudista
Onde todo mundo dançava
Parecia festa de artista
Porém veio um tiroteio
O povo se atropelava
Caindo no chão em esteio!

Pois foi nessa mesma festa
Que uma moça apavorada
O trombone foi-lhe a testa
Nervosa e desesperada
Gritou na confusão:
– Meu Deus to baleada!
E estendeu-se no chão.

Foi gente pra todo lado
Em roça e curral de gado
Muita gente foi esbarrar
Outra moça ainda gritou
– Minha gente, sangue fede a bosta?
– Porque se fede estou morta!
E já caiu no chão de mão posta.

Era assim que acontecia
A rixa era assim.
Quarenta e dois se ia
E a vila de Alagoinha vira Ipaumirim
A briga era no terreiro
Arruda e brasileiro
Não dava cabo do fim!

Arruda de Ipaumirim
Era grande autoridade
E com os Leite de Umari
Que era a antiga cidade
Se uniu e fez poder
Pra levar pra Ipaumirim
Pois conseguiu fazer
Levou tudo, até bar e botiquim!

Levou tudo que tinha aqui
Baixio ficou emborcado
Em seus discursos, dizia assim:
Eu vou mostrar que mais pode
Aqui não vou nada deixar
Pois esse lugar vou transformar
Num grande chiqueiro de bode!

Logo isso foi verdade
A promessa ele cumpriu
Foi uma calamidade
A cidade destruiu
Aqui nada ficou
Levou tudo e deixou nada
Até a Banda de Música levou

Porém antes que tudo levasse
Um fato inusitado se deu
Sem que ninguém esperasse
Um desastre aconteceu
A usina que era um primor
Numa noite bem sinistra
Acoitada incendiou!

Foi aí que dona Jobinha
Moça Muito inteligente
Com dom de poeta que tinha
Fez uns versos de repente
Que arrudista não gostou
Eram versos bem engraçados
Que o povo na rua cantou!

– “ Usina Garcia incendiou-se
Por isso mesmo o dono dela desgostou-se.
Prefeitura bonita, barrada de ouro
Pra levarem ela tem que ser no couro
Mesa de renda querem levar
Mas é besteira esse povo pelejar
O que tem aqui é da sociedade
Vamos ver se Arruda é bom de verdade”!

A confusão era noite e dia
Pois não é que certa vez
Nem bem amanhecia
Dr. Hugo, filho de Brasileiro
Deu um tiro em Joaquim Farias
Por causa de tanta coisa
Que arrudista fazia!

O ano é cinqüenta e três
Foi ano de confusão
E em doze de dezembro
Foi grande a comoção
A cidade se desolou
Pois este foi o dia
Que Arruda tudo levou!

Caminhões encostaram
De frente a repartição
Nada por aqui deixaram
Foi grande esculhambação
Câmara, prefeitura e cartório tiraram
Só uma coisa aqui ficou
São Francisco não levaram!

Ah! Mas esse dia foi agonia
Foi dia de dor e tristeza
E o Brasileiro partia
Foi-se ter em Fortaleza
Atrás de uma condição
Que revertesse a maldade
Da tamanha destruição

Cícero formou comissão
Lutou com muita destreza
Não demonstrou rendição
Fez morada em Fortaleza
Falou com desembargador
Com muita gente importante
Até com o governador!

Os homens fortes daqui lutaram
Também reuniram poder
A Cícero se ajuntaram
Para o quadro reverter
Zuza que era arrudista
Arruda não quis mais ver
Pois que Zuza queria era ver Baixio crescer!

Foi no dia de Santa Luzia
Do ano cinqüenta e três
Uma festa aqui ocorria
E com muita alegria se fez
As ruas o povo enfeitou
Pois o padre Francisco Holanda
As nove horas se ordenou!

A rua o povo enfeitou
Teve até fogo de artifício
A banda na praça tocou
As dez horas rezaram o ofício
O sino da capela bateu
Pois em Baixio se ordenava
Um filho querido seu!

Aqui Cícero não estava
Foi-se ter na capital
Com o governador falava
Resolvendo a situação atual
Por lá alguns dias ficou
Não pôde homenagear
O padre que se ordenou!

Não pôde comparecer
Na missa da ordenação
Em telegrama mandou dizer
Que se fizesse representado
Que se fizesse representado
E era seu filho Dr.Líbio
Que isso ia fazer
Na festa do ordenado!

Mons. Carlos, erro vigário
Padre muito conservador
Na missa, não aceitou a presença
De Líbio o dentista doutor
Pois considerava heresia
Que alguém da maçonaria
Fosse à casa do Senhor!

Dr. Líbio nem ligou
E não fez muita questão
A convite de um soldado
Entrou num bar e sentou
E sem muita explicação
Não é que o praça malvado
No peito de Líbio atirou?

Naquela hora da missa
O TE DEUM estava sendo entoado
É um louvor de premissa
Que um povo bem devotado
A Deus louva cantando
E em missa de ordenação
É um ritual cantado.

Foi grande a gritaria
A rua se encheu de gente
Mulher chorava e corria
E o soldado sumiu de repente
Enquanto o corpo do doutor
Já em mortal agonia
Todo sangue derramou!

Baixio todo chorava
De tristeza e comoção
Todo mundo pranteava
E em grande deprecação
O povo inteiro rezava
Em choro e oração
Ao evento lamentava!

Líbio, era doutor dentista
Simpático e elegante
Do povo era benquista
E a morte ignorante
Que ninguém sabe o porquê
Em pleno vigor da vida
Foi-lhe tirado o viver!

A cidade ficou em pranto
Sua família também sofreu
Sua mãe chorava tanto
Porque o filho perdeu
Não havia conformação
Pois Líbio era amado
Por toda população!

Até hoje não se sabe
Nem se tem explicação
De Dr. Líbio, a morte
No dia da ordenação
E da Usina sem sorte
Que o fogo muito forte
Lhe fez a destruição!

Se passou cinqüenta e três
Passou quatro, passou cinco e chegou seis
Cícero e compatriotas não cessam de lutar
Pediram, exigiram, imploraram
Todo dia na capital exigindo estavam lá
Até que um dia de repente
A cidade voltou pra cá!

Quinze de setembro foi o dia
O ano foi cinqüenta e seis
Pois não foi que o decreto saia
E virou cidade outra vez
Na rua o povo cantou
Na igreja mulher rezava
Porque o decreto chegou!

Foi festa, foguetório, aluá e comida
Na praça dança e bebida
Gonçala de Raimundo Lima
Também muito festejou
Pulando com a mão pra cima
Com prosa que só ela tinha
Gritava: – Arruda agora se lascou!

Dona doca Brasileiro
Também muito festejava
Era a mulher do pioneiro
Que a Baixio também amava
Fez bolo, bebida e licor
Festejando o decreto
Da cidade que voltou!

Já era cinquenta e sete e o mês era agosto
Foi escolhido o prefeito
Que ao povo deu muito gosto
Antônio Ferreira Lima, que na era governou
Sensato, honesto e direito
Foi o primeiro prefeito
Depois que o decreto chegou!

Essa foi a história
Que tenho gosto em contar
De luta, sangue e glória
Mas queiram me desculpar
Se eu mexi na memória
Das coisa que ouvi falar
Dos primeiros acontecidos
Eu quis um pouco ilustrar
Pra que todos possam saber
E ainda conhecer
A história do nosso lugar!

Por Carlos Lucena.

 

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Por Rômulo Borges Baixio-CE, 10 de Setembro de 2019. - REVITALIZAÇÃO CENTRO DE REFERÊNCIA DA